Projeto Ceará 202

RESTAURANDO A CASA DO ARQUITETO

Foram quase dez anos de tentativas para adquirir a maravilhosa casa da rua Ceará 202, que o arquiteto Jayme Campelo Fonseca Rodrigues projetou e construiu em 1937 para bem viver com sua esposa e filhas.

As filhas, proprietárias do imóvel, relutavam quanto à venda porque temiam a descaracterização da obra tão importante da nossa arquitetura.

A casa que o arquiteto havia projetado para seus pais (sede da Cultura Inglesa, na Av. Higienópolis) fora totalmente deformada – e depois foi integralmente demolida –, coisa que os paulistanos, com a cooperação omissiva das autoridades municipais, costumam fazer com as mais importantes obras arquitetônicas, evitando os tombamentos.

O Edifício Sobre as Ondas, no Guarujá, outro projeto de Jayme, também vinha sendo paulatinamente descaracterizado. A casa vizinha à da Ceará 202, projetada para sua irmã e cunhado, foi descaracterizada sob o pálio de um alvará de demolição!

Tudo colocava em risco a memória do jovem e brilhante arquiteto que talvez só não tenha ido ainda mais longe porque a medicina não conseguiu ser tão vanguardista como sua arquitetura.

Quando da primeira restauração, ao comprar a casa, em 1997, os trabalhos foram coordenados pelos arquitetos Álvaro Razuk e Leni Sanchez, que fiscalizavam cada detalhe. Júlio Pechman projetou as estantes da biblioteca, os arquivos e alguns outros mobiliários.

Desde fundações a revestimentos, tudo foi refeito com absoluta fidelidade à origem. Fundiram-se metais descobertos em fotografias cinquentenárias. Móveis, objetos e equipamentos foram escolhidos a dedo, para que o design não desonrasse a residência modernista.

A massa de mica, técnica perdida no tempo, foi redescoberta pelo IPT em conjunto com os pedreiros que trabalharam na obra, especialmente o “Jacaré”.

As poucas modificações, como a ampliação no subsolo para abrigar a biblioteca, o fechamento da garagem que virou sala de advogados e a abertura de mais uma janela no antigo quarto do casal, seguiram fielmente as posturas municipais e o intuito de não prejudicar a memória arquitetônica. Assim, os novos espaços foram separados do corpo da casa com elementos transparentes e manteve-se a mica para relembrar onde antes era uma área externa.

As autoridades municipais não aprovaram a restauração, mesmo depois de meses de espera e tendo-se seguido cada um dos muitos trâmites burocráticos. Oficialmente, portanto, reformamos!

Bem, o escritório cresceu. Já quase não cabemos mais na casa. Mas, nunca pensaremos em ir pra outro lugar.

Para resolver isso o arquiteto uruguaio Ernesto Tuneu conseguiu aumentar a utilidade da casa através da edificação de novas áreas afastadas da edificação principal. Manteve-se a obra arquitetônica.

A casa modernista que Jayme Fonseca Rodrigues abria ao público para visitação continua aberta permanentemente, como um museu ocupado pela vida cotidiana.

Restauração | Mica


Relatório Técnico nº 35.510/97
Natureza do Trabalho: Formulação e avaliação de argamassa de revestimento para restauração de fachada.

Interessado: Ernesto Tzirulnik

INTRODUÇÃO

Diante da necessidade de ser refeito o revestimento externo da residência situada à Rua Ceará nº 202, Pacaembú, São Paulo – SP, respeitando os padrões originais, o Interessado, representado pela Engº Mauro Rodrigues Pinto da Núcleo Urbano Engenharia e Construções Ltda, procurou o IPT para que o mesmo o assessorasse na definição da argamassa a ser utilizada.

Assim, foi elaborada a proposta de trabalho DEC/AMCC 20.296/96 de 02 de dezembro de 1996, tendo sido previsto:

· a caracterização sucinta da argamassa original;
· o preparo e a aplicação de argamassas experimentais, visando a obtenção da textura do revestimento original;
· a formulação de argamassas com diferentes teores de aglomerante e a avaliação de suas principais características físico-mecânicas.

DESENVOLVIMENTO DOS TRABALHOS

Caracterização da argamassa original.
Em vistoria à obra, coletaram-se placas da argamassa original, para servirem como padrão de textura, cor e quantidade de mica superficial e para determinação dos teores de aglomerante e mica presentes. Também foi realizado ensaio de resistência de aderência na argamassa original. Os resultados obtidos constam da Tabela 1.

Na mistura nº 27 adicionou-se também 0,2% (em relação a massa dos materiais secos) de aditivo retentor de água. Esta argamassa apresentou adesividade excessiva às ferramentas de trabalho, que dificultou sua aplicação.

Nas misturas nº 28 a 30 reduziu-se o teor de aditivo retentor de água para 0,05%, variando-se o teor de estearato de zinco; na mistura nº 30 reduziu-se a quantidade de cal hidratada. Para as misturas nº 29 e 30 a mica foi passada em peneira com abertura de malha de 1,2 mm, e utilizada somente a fração retida nesta peneira.

Essas misturas apresentaram trabalhabilidade adequada e facilidade de aplicação, embora tenha-se notado ainda uma certa adesividade da massa às ferramentas. A partir daí foram preparadas as misturas denominadas de A, B, C, D e E, que tiveram suas principais propriedades físico-mecânicas avaliadas.

EQUIPE TÉCNICA

Engº Gilberto De Ranieri
Cavani Químico Valdecir Angelo Quarcioni
Técnico Luiz Antonio Ribeiro
Estag. Gustavo Moreira Tiezzi
São Paulo, 30 de junho de 1997

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